Melodia visual

Entre as profundas transformações que tomaram o campo das artes visuais nos anos 1960, uma das mais saborosas era aquela que previa novo papel para o espectador. O cidadão deveria abandonar a posição passiva e bem-comportada e experimentar, ele mesmo, a aventura da criação. Os avanços tecnológicos, a partir da década de 1990, com desdobramentos cada vez mais amplos no terceiro milênio, trataram de ampliar a noção de “público participador” para “agente interativo”. Navegar, mais do que nunca, se tornou preciso, necessário. De tão repetido e propalado, esse discurso foi adquirindo ares triunfantes, que acabaram relegando a uma espécie de anacronismo à atitude, antes comum, da contemplação.

Os trabalhos de Gisela Waetge – ao mesmo tempo muito firmes e muito delicados, entre o desenho e a pintura, entre o silêncio e a reverberação – nos convocam a retomar o gosto de meramente contemplar. Essas imagens, assentadas sobre papel ou sobre tela, seduzem pela inteligência das resoluções formais: harmonia, equilíbrio, ritmo, até mesmo musicalidade. Ao mesmo tempo, encantam pela sintaxe mínima de que se valem: apenas ponto e linha, linha reta, nunca a curva (essa que é tão mais brejeira e preguiçosa). Ocorre que o rigor sintático, o mínimo de elementos, ponto e linha reta, se recombina em um campo vasto de possibilidades. Do micro, se alcança o macro, a tensão entre um e outro nunca se desfaz.

Mas há um segundo nível em que a tensão se acelera. O desenho (mesmo quando a grade se parece com pintura, o procedimento nos remete ao desenho) costuma deixar claros os rastros de sua construção. Não é difícil de intuir como a coisa toda acontece. Os desenhos de Gisela são fruto de um pequeno cardápio de gestos que calham de ser continuamente repetidos. Com régua, ela traça linhas retas; sobre as retas, ela pontua; com os pontos, risca novas retas. Os pigmentos diluídos, ela maneja horizontalmente, como se equilibrasse – mal – uma xícara transbordando de chá sobre uma bandeja. A água escorre, e, dos pingos, surgem novas retas.

Daí um terceiro ponto de tensão: de um lado, a composição milimetrada, matemática (muitos desses pontos e retas, assim como os quadrados que vão se formando a partir deles, obedecem à sequência de Fibonacci, aquela em que um número vai se somando ao seguinte para produzir um terceiro); do outro lado, o acaso que desliza. Até que ponto dá para controlar a fluidez dos líquidos?  

Gisela menciona uma noção de “campo de energia” que ela percebe em torno desses trabalhos. Entre as referências que acompanhavam a artista no momento da criação, estava a do calor que emerge do emaranhado da vida urbana. Há uma força que faz a cidade funcionar e uma força que se desprende desse funcionamento. Na imagem mental projetada por Gisela, essa combinação de energias se sobrepõe a uma terceira: aquela que é despendida na construção dos desenhos e que, pelas estratégias do olhar, pelos caminhos do endereçamento, se vai completar em outra borda do campo, na energia daquele que observa – também ele um habitante da cidade.  

Por fim, é como se a contemplação não fosse um gesto tão passivo ou tão estático quanto contemporaneamente tentam nos convencer de que é. Marcel Duchamp observou certa vez que são aqueles que olham que fazem o quadro. Nesse sentido, contemplar também é fazer. A própria exposição é um convite. Os desenhos, partituras. A melodia, por executar.

Eduardo Veras, agosto de 2011