Introdução ao livro 105 dias

Em  8 de março de 2012 fui operada e diagnosticada com câncer: adenocarcinoma em ovário, moderadamente diferenciado. O que exatamente tudo isso significava eu não tinha a menor ideia. No dia 2 de abril, comecei a minha quimioterapia: 6 sessões, uma a cada 21 dias. 105 dias entre a primeira e a última dose. 105 longos dias e noites. Cento e muitos amigos ao meu lado. E, por isso, o desejo de fazer 105 desenhos: um para cada dia – mesmo sabendo que haveriam dias nos quais não seria possível fazer nada, nenhum desenho –, um para cada amigo, como um presente, um agradecimento.

A realidade do tratamento, onde cada dia é um dia, e onde a anormalidade é a normalidade,  me mostrou que a minha meta era ambiciosa, que talvez eu não chegasse nem perto dos 105 desenhos a que me propus. Em meus trabalhos sempre gostei de brincar com algumas regras, nunca de uma forma rígida, mas estabelecendo diálogos possíveis e me permitindo quebrar as regras impostas por mim. Então, esse procedimento, de me impor a realização de 105 desenhos e a impossibilidade de fazê-los, também passou a fazer parte, de alguma forma, do processo do trabalho.

Eu estava preparando a exposição no Museu do Trabalho – antes agendada para junho –, quando fui pega de surpresa pela doença. As pinturas estavam quase prontas, todas encaminhadas. Trabalhei usando quadrados de 9 e 12 cm, estabelecendo relações  entre eles, criando quadrados de 36cm que são divisíveis por 9 e por 12. Deixei aparente algumas relações matemáticas que uso na construção de minhas telas e usei pontos, linhas retas, alguns círculos feitos com compasso (porque sempre gostei de usar instrumentos de desenho), manchas, aguadas e poucas cores.

Foi no embalo dessas pinturas e na impossibilidade de ir trabalhar no ateliê com as telas grandes, que comecei estes desenhos, com linhas feitas com réguas, pontos e gabaritos. Usei folhas impressas de cadernos escolares (pauta, quadriculado e pauta musical), lápis de cor, caneta nanquim, grafite e aquarela, e assim fui construindo pequenos desenhos para os meus amigos, para preencher o tempo e esperar que estes 105 dias passassem da melhor forma possível.

Nesta  exposição, que acontece agora em novembro, estão as pinturas (cada uma numa dimensão diferente, em uma combinatória de tamanhos) e estes pequenos desenhos com 9 ou 12 cm.

Este livro e estes desenhos são a minha forma de agradecer:

A todos da minha família, aos que estão perto e aos que estão longe, mas sempre presentes; a todos os meus amigos, que estiveram ao meu lado durante o tratamento e se mostraram solidários e generosos, que foram carinhosos comigo e deixaram tudo isso um pouco mais leve, me fizeram sentir que valia a pena. Aos médicos e a todos os conhecidos e desconhecidos, que, de graça, na rua, por nada, me deram olhares tão atentos.

As pessoas sempre foram importantes para mim, muitas vezes deixei de ir pintar para ficar com os meus filhos, pais, amigos, e alunos e sempre tive a certeza do quanto gosto dos seres humanos com suas qualidades, defeitos e diferenças. Mas, agora tenho uma certeza: isto é fundamental para minha vida.

Gisela Waetge, 2012