A poesia das esquinas – desenhos e pinturas de Gisela Waetge
Por vezes o trabalho de um artista se distancia de sua personalidade; sua estética, de sua ética. No caso de Gisela Waetge, ao contrário, as coisas estão grudadas, e bem coladas. Por isso, e porque me emociona sua lembrança e ela também o faria, começo de forma pessoal. Conheci a Gisela no início dos anos 80, ela recém-chegada de São Paulo, quando fez o estágio na Escolinha de Arte da UFRGS, onde eu trabalhava. Nos reencontramos ainda muitas vezes antes de nos tornarmos amigas. Foi uma aproximação vagarosa. A princípio, sua maneira direta e pausada de falar me incomodava. Era uma clareza sem meias medidas que não havia nas pessoas. Quando fomos professoras no Colégio João XXII, me tirou o tapete numa reunião. Tomei um susto, mas percebi que ela tinha razão. A partir daí, sua sinceridade, antes difícil, passou a ser o que nos uniu.
Isso também aconteceu com seu trabalho. Mesmo eu sendo da área e razoavelmente atualizada com o que se fazia na época, suas pinturas ou quase objetos ou quase esculturas não me seduziram à primeira vista. Foi um amor à terceira ou quarta vista, que cresceu e amadureceu sem esforço. Sim, seu trabalho não se entrega de cara. Adentra lentamente, como sua voz. E se revela por partes, como as camadas que compõem os objetos iniciais. Camadas de papéis de seda finos empilhados e colados em armaduras de arame que estruturam as construções.
As peças são feitas dessa casca de papel. Material translúcido, que revela os pensamentos claros de Gisela. Daí vinha sua força sólida, que não precisava falar alto ou apressar o passo.
Se a maior parte dos artistas que trabalham com o espaço parte do plano, Gisela traça o caminho inverso. Ao vermos seus trabalhos desse período, que escapavam cada vez mais da parede, imaginamos que se lançaria no tridimensional, como de fato o fez em alguns objetos ou esculturas de papel. No entanto, contra as previsões mais lógicas, ela se volta cada vez mais ao plano. Suas peças saltam do lado de fora para dentro da parede.
São as armaduras de arames tramados numa rede ortogonal que parecem originar as pinturas e os desenhos. E é bastante provável que as linhas quadriculares das telas ou papéis, a partir de 1995, sejam o desdobramento das grades perpendiculares que estruturam certas esculturas ou objetos tridimensionais, como Casulo (1995), composto de cubos de papel montados numa rede ortogonal.
Pode-se traduzir ou degustar um trabalho em arte com diferentes bocas e línguas. Para ouvir as tonalidades das partituras geométricas de Gisela, também precisamos de orelhas afiadas. Um percurso vasto como o dela nos propõe inúmeras leituras. É possível contextualizar seu processo a partir da década de 1990, aproximando-o ao minimalismo e à arte conceitual no que diz respeito a regras e seriações. Percebe-se, na lógica de desenhistas como Ellsworth Kelly e sobretudo Sol LeWitt, o rigor que norteia sua prática.
Mas se a arte conceitual se opõe radicalmente à arte retiniana, Gisela trabalha antes e depois de tudo para o deleite do olho, que pousa e se repousa na paisagem da superfície para penetrar na tela e descobrir a profundidade.
Suas desenhuras mesclam linha e mancha de forma singular. O alicerce das retas é o começo de tudo. É o rigor das grades ortogonais traçadas a régua que possibilita a liberdade de manchas ou linhas-manchas. Essas linhas finas são não somente uma forma de se apossar do suporte, mas a marca de seus desenhos desde os tempos de menina. Um desenho limpo, claro, sem nenhum excesso. Linhas de mesma intensidade e espessura não passeiam num espaço de profundidade. As retas afirmam a bidimensionalidade do suporte. Configuram os dois eixos perpendiculares do plano geométrico.
O espaço virtual é conquistado pelas manchas de tinta acrílica diluída como uma aquarela. A pintura magra recebe várias camadas, mostra a textura da tela ou os poros do papel. Estabelece-se uma espécie de perspectiva aérea segundo a concepção de Leonardo Da Vinci no Tratado da pintura. Ou meteorológica, como se refere Itzhak Goldberg à perspectiva de Turner no artigo Le paysage et ses grilles, apresentado por Françoise Chénet em 1996.
As montanhas de Leonardo mostram que o ar é composto de graxa azul. Quanto mais longe, mais azul. Já as paisagens de Turner criam uma cortina semi-transparente que cobre a representação num efeito de relativa ilegibilidade. O ar e a leveza que antes sustentavam os objetos de Gisela suspendem agora nosso olhar numa profundidade de campo que se evapora. Passamos a adentrar essa superfície até onde nosso olho ou nossa imaginação alcançam.
No tratamento, o acaso se converte em matéria-prima. Um acaso sob controle que, às vezes, teima em desobedecer a artista. As telas são inclinadas ou colocadas na vertical para que a tinta deslize. A ação da gravidade é sua grande parceira. A tinta escorrida provoca surpresas inesperadas. Os erros, os acidentes são incorporados de tal forma que a relação entre acaso e intenção se mantém num raro equilíbrio.
Quando criança, Gisela frequentou o ateliê de Paulina Rabinovitch, onde mais tarde atuou como assistente. Aprendeu com sua mãe a gostar de costura e, no início dos anos 1980, morou na França, aproveitando para fazer cursos de patchwork, técnica que passaria a ensinar em seu ateliê. Essas experiências revelam um processo essencialmente manual voltado à contemplação.
Formada em Arquitetura pela Mackenzie, Gisela conviveu sempre numa família de arquitetos. Suas armações geométricas, embora fluídas, revelam a cidade de origem e a “dura poesia concreta de suas esquinas”.
Sabemos o quanto eram importantes as relações matemáticas que estabelecia. Os intervalos, sobretudo verticais, seguem lógicas sequenciais. Embora nem sempre possamos decifrar facilmente essas inúmeras progressões, os números 9 e 12 se mantêm nas variações dos intervalos em prol do ritmo de cada construção.
Em A originalidade da vanguarda e outros mitos modernistas, de 1985, Rosalind Krauss nos alerta sobre o perigo da repetição das grades e o paradoxo que representa para o artista: ao mesmo tempo uma liberação e uma prisão. Mas Gisela soube se reinventar e nos propor novas variantes a cada trabalho, sutilezas de rara sofisticação.
Numa região onde havia poucos pintores abstratos e a desfiguração geométrica praticamente não existia, era preciso coragem para perseguir esse caminho até o fim, com todas as limitações físicas, provocadas pela doença em seus últimos anos. Sua determinação era inabalável. Tampouco no convívio era de ceder aos apelos das facilidades. Traçava o desenho da vida como suas retas, da forma mais simples e direta de unir dois pontos. E se acreditamos que esse é o poder da arte, Gisela sabia como ninguém unir as coisas e as pessoas.
Teresa Poester
Éragny-sur-Epte, junho de 2021
* Texto escrito especialmente para o lançamento do site e da catalogação do acervo de Gisela Waetge.