Faço pintura (Sobre o meu processo de trabalho)
Faço pintura.
Trabalho quase todos os dias: faço vários trabalhos ao mesmo tempo, lentamente (com energia), onde praticamente todas as pinturas ficam prontas juntas – como uma coisa só.
Ouço rádio, gosto de dançar enquanto trabalho…
Tomo café.
Defino as dimensões do meu trabalho a partir de relações geométricas, matemáticas e também da minha disponibilidade física – meu corpo – e meus desejos.
Preparo o algodão ou o papel com uma base. Espero secar. Olho.
Quadriculo com grafite uma malha de quadrados (9X9 cm). Uma rede. Olho.
Gosto muito dessa fase do trabalho… quando a superfície está toda quadriculada: a estrutura se expandindo, pulsando. A rede como suporte para todas idéias.
Começo.
Começam as pinturas – as cores:
Manchas translúcidas de tintas – verticais.
Escorridos.
Pingos que sobem, de alguma forma programados, mas que escapam ao meu controle, pois têm vontade própria.
Linhas finas de tinta, riscadas, que se movimentam por toda a superfície, num jogo com o vazio – fundo.
Vazios.
A pintura vai se constituindo.
Em alguns momentos, pinto estando completamente dentro da superfície da pintura, totalmente dentro dela, outras, me afasto e OLHO. Olho muito. Penso no espaço lá dentro, o que está acontecendo lá? Tem profundidade? Sutilezas? Passagens? Ritmos? Planos? É agitada ou calma? Tem leveza?…Lembro de gráficos, uma partitura, a pauta, uma cidade, edifícios, traçados urbanos, luzes pulsando, toda essa energia que emana de uma rede, as ligações nervosas, um gráfico do corpo, o meu corpo, a repetição dos gestos, o tempo, a pulsação, a calma, um jogo.
Um jogo entre idéias e emoções – uma construção. A construção da própria pintura dia após dia.
Gisela Waetge, maio de 2006