Campos de energia
Na exposição Tripé/Paralelo 30 [SESC Pompeia, São Paulo, 2010] mostrei trabalhos produzidos nesses dois últimos anos (2008-2010), foram pinturas-desenhos ou desenhos-pinturas que formam as séries: Campos de Energia, Tramas Escorridas e Desdobráveis.
“… o mundo vibra com tantos sinais e tantas coisas curiosas…”
Orhan Pamuk*
Quando comecei a fazer essas pinturas estava num momento delicado, em busca de alguma coisa que não conseguia precisar, e pensava em como eu estava necessitando de energia. Não era uma sensação nova e nem tampouco um pensamento novo. Em 2005, enquanto fazia as pinturas para a V Bienal do Mercosul, as ideias que me vinham à mente eram pulsação, vibração, gráficos, ritmo (entre outros assuntos específicos da pintura, como cores, contrastes, leveza).
Nos Campos de Energia, Tramas Escorridas e Desdobráveis, também pensava nas cidades, esse lugar em que vivo-vivemos, com suas luzes vibrando, com seus vários sons se sobrepondo, com linhas invisíveis de comunicação, com o atrito entre os seres humanos. Pensava em quanta energia brotava desse emaranhado que é a vida urbana pulsante e imaginava a energia que é necessária para uma cidade funcionar.
Todo ser humano emprega energia no fazer e nesse sentido somos todos geradores de energia. Para realizar o meu trabalho, coloco minha energia vital. Em troca, pelas leis da física, ele me devolve energia, me alimenta (acho que esta questão está ligada ao prazer da criação). O meu desejo é que a energia colocada por mim, no ato de criar, passe para o observador, para essa outra pessoa, que habita esse lugar pulsante que é a cidade, e que também vai despender energia observando um trabalho e claro, vai receber energia em troca, como um ciclo.
Na física, energia é um conceito que pressupõe dois sistemas em interação onde não há perdas, assim ela pode assumir várias formas, mas em todas as transformações há completa conservação dela.
Nos trabalhos desenvolvidos para a exposição Tripé/Paralelo 30 posso apontar alguns elementos que me são ou foram importantes durante a execução dos mesmos. Com isso, não tenho a pretensão de abarcar todas as relações que um trabalho de arte permite e nem determinar o que o observador possa ver, sentir e pensar.
Para mim, a borda verde-limão, elétrica, define um espaço, indica um campo, um lugar onde a ação pode acontecer. A malha ortogonal quadriculada, feita com réguas e grafite, me traz relações geométricas possíveis e que quando pronta (esse é um dos primeiros passos na construção do trabalho) parece pulsar e se expande. O uso de instrumentos de desenho, as réguas, tira-linhas, lápis de cor, me deixam centrada no fazer, como se eu pudesse suspender o tempo, e ao mesmo tempo fazê-lo passar. As linhas, que me lembram partituras, dão ritmo e me remetem à musica e à dança. A pintura rala, escorrida, provoca desordem na ordem, imprecisão na precisão. A tela fina e o papel trazem a memória da pele, do corpo. Os pontos feitos com nanquim me permitem fazer várias analogias, como os pontos num mapa (localização), o ponto geométrico que define um espaço, os pontos cardeais, os pontos que faço para costurar, as medidas entre dois pontos, o ponto que marca o tempo, os pontos importantes de uma cidade, de uma conversa, os pontos nos is, e o ponto-final.
Gisela Waetge, janeiro de 2011
*PAMUK, Orhan. Outras Cores: ensaios e um conto. São Paulo. Cia das Letras, 2010.