A pintura de Gisela Waetge
A grandeza de um artista mede-se não só por sua capacidade de oposição aos artistas que o precederam, mas também por sua capacidade de diálogo com eles. Aliás, não existe diálogo sem dialética, ou seja, sem uma oposição que termina em síntese. É interessante, por isso, buscar a genealogia da pintura de Gisela. O primeiro nome que sugere é o de Malevitch. Que pretendia o pintor russo? Esvaziar a tela de seu peso iconográfico, de sua moldura cenográfica (ou perspectivista) e, finalmente, de suas ressonâncias emotivas. “O branco sobre o branco” – para que o olho pudesse reconhecer, no conceito do branco, a sensação do branco, que é diversificada. Existem tantos brancos quantos tipos de nódoas nele. Depois de Malevitch, Mondrian. Este ensinou Gisela a dar preferência a determinadas formas geométricas, embora a artista nunca tenha erigido em dogma semelhante preferência. Quando lhe apraz, utiliza outras formas, como as do arco e do círculo. De qualquer forma, subjaz, à obra de Gisela, uma certa atitude ascética, purista, do mestre holandês. Por último, outro nome: Rothko. Deste Gisela aprendeu uma certa ordenação cromática, uma paixão pela cor modulada, as impurezas que subvertem o esquema, rígido ou solitário, das superfícies.
Inspiração não significa submissão. O que torna a produção de Gisela interessante é o caminho que ela faz ao andar, segundo a expressão do poeta Antônio Machado. Podemos dizer que esse caminho se caracteriza por uma procura do expressivo dentro de uma ficção não-alusiva, isto é dentro de um projeto abstracionista. Gisela quer fazer uma pintura que valha por si. Lendo um livro de Murray Schafer, O ouvido pensante, ocorreu-me qualifica-la de tímbrica, ampla e textural. Diz o compositor: “Se um trompete, uma clarineta e um violino tocarem a mesma nota, é o timbre que diferencia o som de cada um”. Noutras palavras: “o timbre traz a cor da individualidade à música”. Por outro lado, que se deve entender por amplitude? “Som forte – som franco – responde Schafer – adição da terceira dimensão ao som pela ilusão de perspectiva”. Finalmente: “A textura produzida por um diálogo de linhas é chamada contraponto: punctus contra punctum é o termo latino original do qual deriva contraponto sugerindo que estão em operação as tensões dinâmicas”. Não é, acaso, o que Gisela se empenha por realizar? Sua pintura é rigorosamente tímbrica quando ela toma determinada cor, o azul, o vermelho, e extrai delas a joie de vivre das sutilezas. Servindo-nos do jogo proposto pelo compositor: “sat, sit, seat, sit, soot” (que sua tradutora verte: sal,sol, sul, sol, céu – para dar uma ideia ao leitor de língua portuguesa), Gisela tece uma poesia cromática feita de aliteraçãoes visuais. Não tem pressa. Obriga o espectador a sentar-se numa cadeira para, acalmadas, as tensões, saborear suas descobertas. Também aqui existem cores quentes e frias, e isso, para ela, substitui a alegria por demais evidente do tema. Sua pintura é ampla, inclusive por perseguir os extremos de intensidade. O famoso crescendo de Alban Berg em Wozzeck encontra, no trabalho de Gisela, sua contrapartida: seus descrescendos. Gisela contenta-se com uma cor que consegue modular, tendendo não raro para o silêncio, que não é o fim do quadro, nos dois sentidos da expressão: objetivo e término. Ela quer que, no espectador, os eventuais resíduos continuem a magia inicial que lhe fez pegar o pincel. Quanto ao aspecto textural: a artista dá-lhe tanta importância que privilegia um dos suportes menos usados pelos colegas, por ser o mais frágil. Frágil sem dúvida, mas também dos mais ricos em variações, tanto assim que a humanidade escreve seus textos nele. Na realidade, o trabalho de Gisela assemelha-se, sob muitos aspectos, ao trabalho de um escritor. Ela escreve suas linhas, suas formas, e suas cores no papel. É obra de muita paciência, de muita obstinação, também engenho e arte. Primeiramente, quando confecciona suas telas, entretecendo-as. Com semelhante técnica obtém uma sorte de subconsciente ficcional para seus leitores. Estes podem não ver, à primeira vista, o que ela fez, mas, aos poucos, sua elaboração se impõe através do conjunto. Depois, as oposições aparecem, opacas ou transparentes, suscitando no contemplador, não propriamente um “eros decorativo”, mas um “eros rítmico”. Aliás, existe uma dimensão decorativa no trabalho de Gisela: é o “prazer da textura”, parafraseando Roland Barthes. Os seus quarenta azuis ou vermelhos estão aí para não fatigarem o contemplador. Não é só isso: a despeito da inexistência de um referencial (não aparecem imagens na sua obra, não se descobrem signos reconhecíveis de objetos culturais), ela sugere uma dimensão de profundidade difícil de definir. Que profundidade, se não há alusões a ideias filosóficas ou políticas, a mundividências em voga? É de se perguntar: vale mais a palavra ou o silêncio? Há ocasiões em que o silêncio é ouro e a palavra, prata. A pintura de Gisela não pretende, a rigor impulsionar uma determinada visão psicológica, sociológica ou metafísica de existência. A rigor, dissemos, pois existe algo nela que metaforiza semelhante visão. A simples escolha das cores é emotiva, a-racional embora não irracional. Como abstrair o que as cores foram, do seu passado, da sua história? As próprias formas geométricas, assumidas num contexto pictórico, são ultrapassadas por auréolas de significações, e definidas por realidades extra pictóricas. Uma determinada cor, associada pela mídia a determinado produto, pode interferir no processo criativo da pintora, e na observação estética dos espectadores. Digamos então: por mais que se projete uma obra de arte pura, temos que contar com a história e o cotidiano. Gisela sabe disso. Ainda que sua pintura se queira intencionalmente pura, ela se dispõe a aceitar o desafio das interferências da realidade, e é por isso, também, que sua obra é um desafio, uma objeção. Ambos obrigam o contemplador a situar-se frente a ela, numa atitude não-passiva. Ao mesmo tempo que proporciona uma fruição finíssima – a quem se dispõe a acompanhá-la –, estimula seus apreciadores a seguirem o próprio caminho, produzindo eles próprios o espaço do sentimento e pensamento, que sua obra inclui sem impor nada. Numa palavra: a pintura de Gisela é uma pintura para minorias que, sem orgulho ou excessiva valorização de si próprias, sabem que o sabor é saber, na medida em que o sabor exige – como na poesia – o máximo de condensação, o máximo de concentração.
Armindo Trevisan, 1993