Da trama ao infinito

Pequeno Vocabulário para as obras de Gisela Waetge


TRAMAS. Gisela Waetge tece tramas desde os anos 80, anteriormente, com arames, hoje em dia, tramas visuais, feitas com linhas desenhadas. Às vezes o papel milimetrado serve de trama pré-existente, ponto de partida sobre o qual a artista apõe seus signos próprios, criando outra trama.

TRAÇOS. São, atualmente, traços desenhados que criam as tramas. A primeira etapa, de traços regulares feitos com régua, é quase mecânica: cria uma malha regular de ortogonais, ponto de partida, porto seguro do qual a artista parte para criar o desconhecido.

RÉGUAS. Gisela não só utiliza réguas para criar ortogonais, mas cria réguas – obras horizontais, feitas em papel milimetrado. Elas possuem um caráter simbólico: servem para medir o tempo, medir o espaço. Necessidade, talvez, de delimitar seu território, medir a duração de sua vida?

TRÉGUAS. As obras compõem-se não só de seus espaços internos, preenchidos pelas tramas, mas também dos intervalos entre uma obra e outra – a relação com o espaço é fundamental. A artista planeja vazios, nos quais os trabalhos respiram. Esses são como tréguas – intervalos de tempo em que os atos ficam suspensos.

TREMORES. O tremor é o que mostra a humanidade da mão que cria. Por cima da mensuração mecânica, o tremor é o que inscreve a diferença. As linhas feitas à mão são como autógrafos, uma escrita pessoal, irrepetível e inimitável.

SUSSURROS. A pintora quer que sua pintura seja sussurrante, que a cor não grite. Uma obra de sutilezas, de silêncios, de paz. Mas não uma pintura confortável como uma poltrona, como declarou Matisse: algo, pelo contrário, que faça refletir, que leve a participar – mas sem catarse.

XADREZES. O xadrez cria um padrão. Como se fosse necessário partir de uma estrutura rígida, de uma grade pré-definida, repetida a cada nova obra. No entento, cada obra é outra. Talvez porque o xadrez seja, também, a base de um jogo estratégico, na qual uma partida jamais é igual a outra. A artista também instaura um jogo, com a matéria e consigo mesma. Talvez, criar previamente uma rede seja uma maneira de garantir suas chances de vitória.

MEDIÇÕES. Medir é, às vezes, tentar dominar o tempo, dominar o espaço. Mediante o ato repetitivo que mensura, a artista sonha apropriar-se do mundo.

FERIMENTOS. Sulcar o suporte, ferindo-o. Sobretudo nas útlimas obras, sobre suportes novos, Gisela muitas vezes inscreve a trama na pele da obra, criando cicatrizes. E assim, cria novos efeitos de sentido, pois, segundo Paul Valéry, o mais profundo, é a pele.

ESTRUTURAS. Há sempre uma estrutura subjacente ao trabalho, que não é propriamente o suporte, mas algo que constrói a forma: madeira na época dos Rudimentos, arame nos Casulos e nos Quadriculados, e atualmente, as estruturas desenhadas à lápis. Há uma coerência na trajetória das obras, para além de sua forma final.

REPETIÇÕES. Segundo a teoria da poiética, é mais importante o como da obra, do que o porquê. Repetir é, simultaneamente, procurar recriar o mesmo, e produzir a diferença. Repetir o irrepetível significa, em arte, abrir a obra às infinitas possibilidades do novo. Como repetir, criando novos efeitos de sentido, eis a questão. A artista criou suas modalidades próprias de repetiçãom que se insrevem mais no processo do que no resultado final.

INFINITOS. Os trabalhos atuais possuem a capacidade de expandir-se em todos os sentidos: as tramas, regulares, sem margens, atingindo as bordas do suporte, permitem supor uma continuidade virtual para além dos limites da tela ou do papel. Essa expansão possível alia-se aos intervalos, ao branco da parede. É significativo que a artista planeje para breve um desenho mural no qual a trama fique em aberto, inacabada, não atingindo os limites do muro. Tramas e tréguas, sugerindo um todo possível. Talvez na obra de Gisela Waetge as repetições, as tramas, as réguas, os intervalos, visem antes de tudo, antes mesmo de medir o tempo e o espaço, permitir à artista medir-se ao infinito, da vida e da arte. Lá onde há um eterno refazer do nunca ainda feito.

Icleia Borsa Cattani, pimavera de 1997.