As cores pálidas

Enquanto o vento frio do Sul sopra, a pipa pode voar, uma pipa grande, transparente e leve. As crianças soltam a pipa, que pode passar por cima de muros. A pipa, quando perde a corda, é aí então uma pipa livre. Mas o trabalho da Gisela não é uma pipa que voa porque está preso ao chão. A leveza dele (essa sensação causada em mim, de pipa) pode ser o desejo humano de voar, de romper a rigidez, a ordem e chegar ao espaço sem matéria. Mas reais são a fragilidade, a vulnerabilidade, a palidez, a fraqueza… Condições Humanas que não soam bem, mas nesta aparência está a “atmosfera” do trabalho e respectivamente sua força, e se quebra mais uma vez o conceito tradicional e acadêmico de “beleza” e “bem-acabado” ou “bem-resolvido” (pronto).

(Século XII – ZEN – “A influência do Zen na pintura causa o sentido da naturalidade, e a pintura se liberta dos cânones da pintura religiosa. A pintura tradicional dependia da técnica que fazia com que cada pincelada já estivesse pré-concebida e a obra era executada em poucos minutos; o que contava era a habilidade, o virtuosismo e uma pré-concepção clara, enquanto que a pintura Zen deveria ser caracterizada por qualidade criativa“.
Século XX – JOSEPH BEUYS em diálogo com Simmen diz que ele “procura a possibilidade de colocar as pessoas em geral como testemunhas de substâncias, como uma única criação – um princípio de criatividade, que até se apresenta na natureza”. Beuys procura alcançar uma outra camada (do mundo) e “não mais a camada superficial onde o mestre medieval retrata o exterior (fachada) buscando a plenitude de forma pelas mais variadas maneiras, até conseguir o que na sua concepção é a sua obra-prima”.
ZEN “… China – primeiro se mostra como ele procura a vaca, depois ele descobre as suas pegadas, aí então ele vê o próprio animal…”)

O trabalho é a pintura ou o objeto, a mancha e o papel juntos fundidos. Gisela trabalha com pouco; economia de material – redução das coisas, a forma é uma decorrência.

K. – Como tu vês o futuro?
G. – Sabe, de vez em quando eu vejo o futuro um pouco negro, difícil, mas eu acredito na vida, eu estou viva, tive filhos e tento acreditar na humanidade apesar de toda a incerteza que vivemos.

K. – Sendo mãe, artista e mulher, tu integras teu trabalho no teu viver? Teu trabalho é influenciado pelas crianças? E elas por ti? Eu pergunto isso porque te acompanho desde 84 e assim sempre te observei e gosto desta parte, quem sabe o gerador, essa parte que flui, que as vezes é muito lúdica. Teu trabalho já se misturou com a festa de aniversário das crianças e tu não colocou limites: um farol no bolo com luz, um livro, uma careta pintada no Pedro… Eu acho certo, se o homem primitivo para celebrar um acontecimento pinta o corpo… e aí é “um todo” (Arte), por que o ser civilizado não pode resgatar esse “todo” e criar relações interdependentes, sendo criativo no dia a dia e com isso mais feliz e mais simples (ou mais complexo diante da história)? Pelo menos será mais subversivo (porque a criatividade permite ao ser humano não virar máquina, máquina que reproduz mentiras). Eu gosto do teu trabalho, que nasce de uma emoção calada. São papéis as vezes com rasgos, transparentes, quase brancos, pálidos… Ele não faz parte da festa das crianças (mas aprende com elas). Mas responde, como tu vês essa relação Arte, Mulher e Mãe? Toda mulher quando mãe pode ser Maria?
G. – Acho possível as três coisas, não sinto que uma exclua a outra – todas fazem parte da vida. O que eu vivo com as crianças e com o Flávio de alguma forma se revela no meu trabalho e o que eu vivo no meu trabalho também é vivio por eles de alguma forma. Agora essa história de Maria, Karin, eu não entendo bem. A virgem, mulher de José e que se dedicou a Jesus? Eu não quero ser Maria nesse sentido, quero ser mãe, mulher e me realizar profissionalmente.

K. – Maria como gerador de amor é assim que eu a vejo. Não existe mãe virgem na Natureza. É um esterótipo. Eu valorizo o ser humano, como ser real, talvez por uma condição que ainda não exista. É uma questão de conquistar a verdadeira liberdade, o rosto original. Acho bonito quando as crianças estão integradas ao meio. E a Arte é um bom meio para elas, e elas podem ser benéficas ao meio artístico.

Bibliografia:
Zenkunst – Hugo Munsterberg
Joseph Beuys/Desenhos
American Woman Artists – Charlotte Streiffer Rubinstein

Karin Lambrecht – 1988