A regra sensível

No universo de Gisela Waetge, ética e estética são elementos indissociáveis, que se estendem a todas as esferas da vida profissional e familiar. Perfeccionista, dispensa o mesmo cuidado de sempre com tudo que está ao seu alcance, como na organização de seu ateliê, e nos patchworks que faz e ensina. Seu maior impulso é o da ordenação do espaço e dos elementos que o compõe. Isso vale dizer que nada, do que penetra em seu campo visual, escapa à sua delicada e refinada percepção.

No início de sua carreira, já interessada no desenvolvimento de uma linguagem pictórica que pudesse se relacionar com o entorno, costumava criar estruturas que se sustentavam no espaço. Logo, seu trabalho passaria por um processo de compactação semântica, em direção a elementos essenciais.

Ainda interessada na projeção destes “corpos pictóricos” no espaço, chegou a uma magnífica síntese entre pintura e desenho. Investigou formas de garantir a estruturação espacial de um suporte frágil, como o papel, sem colocar em risco a natureza poética do trabalho.

Ao associar papel e grade de arame, criou uma marca particular, que lhe garantiu uma maior visibilidade no cenário artístico local e nacional. Também construiu, com papel, objetos tridimensionais, chegando a estruturas auto-sustentáveis, concebidas com alvéolos que tendiam a repetir-se indefinidamente.

Entretanto, outra significativa transformação já estava se processando no trabalho da artista. Neste contínuo processo de busca da essência dos elementos que regiam sua experiência sensorial, a grade de metal, que originalmente garantia a sustentação dos objetos, entrou em franco processo de fusão com o desenho.

Agindo no nível da representação, e feita pela tessitura compassada de linhas e de faixas de cor, a grade deixou de ser real, para tornar-se conceito. Daí a enorme gama de variações que possibilita, explorando diferenças rítmicas sobre medidas regulares: pode expandir-se vertical ou horizontalmente no espaço, estreitar-se como uma longa partitura, recobrir paredes inteiras, ou assumir uma escala quase imperceptível.

Alguns dos desenhos atuais de Gisela Waetge, feitos sobre papéis translúcidos (papel japonês, papel manteiga, papel de padaria…), e que começam a se aproximar da ideia de gravura, apontam para mais uma mudança de rumos que parece estar em curso. São registros de uma escritura poética, desta feita desenvolvida em escala menor e espaço limitado, ao contrário dos habituais trabalhos de grandes proporções. Neles ainda se pode observar a presença da grade estrutural, que, em alguns casos, aparece apenas como indício. Mas, por certo, há também, uma maior incidência de elementos casuais.

Este diálogo entre o determinado e o indeterminado, entre o previsível e o imprevisível, entre o certo e o incerto, expresso num gestualismo milimétrico, configura uma fascinante tensão entre a regra instituída e o desejo de subvertê-la.

Neiva Bohns, julho de 2001