A arte como processo

…na feitura de obra,
subjaz o seu sentido.

Corine Robins

Foi na busca de um dizer essencial, de uma linguagem irredutível, que os minimalistas dos anos 60 valorizaram o processo de elaboração da obra, sua tecnologia poético-reducionistas. Contudo, a despeito de ser uma busca metafísica, era também algo utópico, isto é político. Atrás do sacrifício de toda acidentalidade, pessoal ou histórica, havia uma vontade de identificar a forma mterial (o significante), o significado, e a realidade do objeto (o referente). Desde o século XVII, esta busca racionalista do “entendimento” ou linguagem universal foi um idela utópico que queria fazer coincidir a sensibilidade, o sentimento e a razão. Isso, se acreditava capaz de proporcionar paz permanente a indivíduos e nações.

O desencanto, que se abateu sobre a geração de depois de maio/1968 e da depressão mundial que seguiu, trouxe consigo um voltar-se ao indivíduo para mundos pessoais, para esferas eróticas, sexistas, étnicas, classistas, arrabaldinas, etc. Esta atitude políticamente alternativa, quando pretendia ser de vanguarda, era, mesmo se experimental ensimesmada. Linguagens por assim dizer autistas foram criadas, permitindo aos artistas darem forma a mundos pessoais, aproveitando materiais indiferentes, fossem o resuldado da tecnologia recente, ou quase destroços da civilização. Com isso, estes artistas tem buscado expressar uma identidade primordial, numa onda neo-primitiva, numa visão original, próxima à espontaneidade infantil, um balbucio que tem, no entanto, muito pouco a ver com a nati-cultura dadaista.

Gisela Martins Waetge vem desenvolvendo entre nós uma experiência significativa com construcões de papéis aproveitados sobrecolados. São tecidos que se fazem espessuras e transparências variáveis, fissuras, rasgos e enrugamentos que representam interesse táctil às superfícies. Neles a própria cola, algum pigmento, o branco, e a luminosidade e textura do papel, se fazem atmosferas enevoadas quase penetráveis, infinitos de misteriosa leveza.

Aderidas a frágeis bastidores de madeira simples, retangulares ou em arcos, estas membranas de papel entrecoladas se tensionam, se estiram em superfícies que, de tão esticadas, chegam a distorcer os formatos no seu desejo de vôo. Sopra nelas um vento não se sabe de onde vindo, brisa leve… um perfume, e feito vela, (Navio? Pandorga? Pássaro? Astro?) já à viração reagem, ganham direção… decidem um destino. E todo um espaço se articula, dando a quem se aproxima sentido, ou melhor, os sentidos nele/nela despertam, convidando a se tornar consciente, a se questionar sobre o ambiente que agora habitam, e que o evento artístico renova, fazendo-o re-emergir significativamente. O material, simplório, pobre; a técnica pouco convencional, difícil de discernir quanto à delicadeza paciente, feminil, da sua trama; a mensagem, saturada de ambivalências, quase um caos; tudo leva o espectador a questionar sua própria experiência, a redimensionar o seu sistema de sentir e perceber.

Assim, intimista e sonhadora, a obra de Gisela Martins Waetge propõe uma espécie de recomeço. Oferece como possibilidade a aquisição dos “rudimentos” de uma nova e pessoalíssima linguagem artística. Embora ainda em elaboração, esta linguagem já se auto-domina, e consegue impor infinitos imaginários a espaços, até há pouco, simplismente cotidianos.

Carlos Scarinci – 1988