Vento frio em dia de sol

Como parte do público que admira e acompanha as pinturas de Gisela Waetge, vejo-a trabalhar norteada por um processo de redução formal e técnica tão claro quanto rigoroso, de modo que, a cada nova etapa, penso ser a última possível de uma longa seqüência de operações a caminho da concisão. Para satisfação de seu público, entretanto, a artista apresenta, em sua nova exposição, uma safra inédita e fértil de “nadas”, como ela mesma brinca ao se referir a suas pinturas mais despojadas.

A nota diferente nesse novo conjunto de trabalhos é acionada por um gesto simples: após depositar uma mancha de tinta líquida sobre o papel, Gisela Waetge a faz escorrer em várias direções, balançando a folha suavemente no sentido horizontal e evitando que o líquido ultrapasse os limites de uma grade desenhada como plano de fundo, o que nem sempre é possível. O movimento cessa no instante em que a mancha é absorvida, deixando rastros pontuados por áreas de maior concentração de pigmento e líquido.

Nesse processo, o fim do movimento é também o fim do trabalho.

Em um encontro em seu atelier, Gisela Waetge confessou que a execução das pinturas escorridas (como se refere informalmente a essas últimas aguadas) lhe proporciona um prazer intenso. Contou-me que, nos intervalos do trabalho de finalização de uma pintura, entretém-se em fazer esses “nadas” quase como quem repousa, fixando a mente na sensação do movimento e na provocação de um acaso precariamente controlável. Estou certa de que o desfrute do público diante dessas novas pinturas não será menor do que o da própria artista ao fazê-las. Penso que essas aguadas têm o poder de induzir a um estado de sobressalto semelhante àquele motivado por um vento frio contra o rosto, num dia de sol – sensação prazerosa que faz ansiar, ao mesmo tempo, por mais sol e mais frio.

Sobre a origem da grade desenhada a lápis, ao fundo de suas pinturas, Gisela revelou que “inicialmente, as grades eram estruturas feitas em arame para dar sustentação ao papel”. Referia-se a trabalhos antigos, substancialmente encorpados por camadas de tinta e pela participação de colagens sustentadas por um aramado. Esse depoimento levou-me a rememorar a trajetória da pintora, percebendo a que distância ela se deixou conduzir pelos gestos mínimos que caracterizam seu processo de criação.

Intrigada pelos novos trabalhos, perguntei-me o que poderia tornar tão atraentes essas aguadas, reduzidas a um quase nada do que constituiu as primeiras pinturas; ou, para retomar a sugestão anterior, de que forma essas variantes mínimas de uma matriz trabalhada inúmeras vezes ainda provocam o arrepio de um vento gelado em dia de sol.

Talvez não caiba, no caso dessas pinturas – e quem sabe no de nenhum outro trabalho – analisar o mistério das reações anímicas diante da beleza. Assim, restrinjo-me a traçar umas poucas linhas sobre as pinturas escorridas, detendo-me no gesto, personagem que me parece central nesse último conjunto de aguadas e que remanesceu à série de operações de redução, repetição e simplificação que trouxe a artista até aqui.

O gesto ao qual me refiro é a ação de balançar a folha de papel até a absorção completa da aguada. Não se trata do gesto dramático de um ator, tampouco do gesto que se apaga, ao concluir-se em um objeto. Por outro lado, também não é gesto que se exibe, a si próprio, como finalidade. O ato de balançar a folha e a repetição insistente e não progressiva dessa ação, gerando o sem número de trabalhos que compõe a série, configura-se como um gesto que pretere a conclusão à interrupção, como um caminhante que saúda o beco ao final do percurso. Gesto que não almeja nada para além de si, ou, pelo contrário: que se quer na condição de uma potência em suspensão. Creio que é a apresentação crua de uma ação tão evidentemente inócua que produz, em nós, o prazer sobressaltado de que falava há pouco.

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Recentemente, conversando com Gisela Waetge sobre a pintura dos mestres românticos e suas paisagens, ela confessou: “Eu queria fazer uma pintura arrebatadora, mas acho que não seria capaz, com minhas linhas retas e tortas”. Nem só de nuvens e mares bravios se alimenta o enlevo, pensei. Preciso dizer a Gisela que essa pintura já foi feita quando, no intervalo entre um trabalho e outro, ela decidiu embalar uma sobra de papel e observar o rastro errante do líquido escorrendo sobre um quadriculado a lápis.

Maria Helena Bernardes, maio de 2007.