O acaso programado de Gisela Waetge

“Ser artista hoje significa questionar a natureza da arte. Se questionarmos a natureza da pintura, não se pode questionar a natureza da arte.”
Joseph Kosuth

Cadências reticuladas em grafite, ou suavemente cromáticas deslizam sobre um amplo espaço de matéria translúcida, também tramada em tons pastéis. O mundo ali se encontra contido, embrenhado em meio a esse harmonioso recanto de feixes manchados, onde todas as narrativas silenciam. Expõe-se o espaço da arte e dele emerge a pintura ao primeiro plano.

As convenções desta recolocam-se, as que na modernidade viam-se estabelecidas e posteriormente questionadas, menos por questões estéticas que pela crítica às condições práticas e institucionais da própria arte. A tela, os materiais, os chassis e ato pictórico trazem junto todos os debates da sua história. Essa arte hoje interroga o modo como ela própria se constitui, os lugares de sua fabricação e exposição, os suportes e a sua imersão na vida. Não se conhecem mais seus limites, pois em nossos dias a pintura amplia-se na globalização de seus campos expandidos. A obra de Gisela Waetge propõe, inserida nesse contexto, aspectos essenciais para se pensar a arte, em especial a pintura presente.

Desde os tempos dos primeiros trabalhos, essa artista dedica-se aos aspectos matéricos da sua produção. Os frágeis suportes de papel dos seus Rudimentos de 1988 já trazem alternâncias entre opacidade e transparência, como se do âmago daqueles pigmentos esbranquiçados jorrasse uma luz proveniente não se sabe de onde. Daqueles objetos já se forma o embrião das pinturas atuais. Os planos invadem o espaço, mas paradoxalmente ressaltam toda a precariedade da sua constituição em papel e das suas delicadas estruturas. Seguem, logo após, os reticulados, os que nunca mais se afastam da sua produção. Estes se entreabrem às incontáveis possibilidades de todas as obras subseqüentes.

O papel tramado com arame e as redes carregadas de pigmentos densos estruturam essas obras que quase sempre abandonam o espaço ambiental para se fixarem nos espaços tradicionais da pintura. Ao longo das paredes, como se flutuassem sobre suas superfícies, essas obras intercalam a leveza das suas tramas com a opacidade dos tons espessos que as cobrem, inserindo dentro de si questionamentos sobre a especificidade da pintura. Em lugar da tela, o papel; da superfície plana, aos volumes do objeto.
Essa proposta um dia estende, pelo desdobramento das retículas, a pintura às paredes sem limites. Gisela faz a trama afastar-se do arcabouço dos objetos e a expande ilimitada por todo interior de um ambiente. O reticulado que se esvai pelos muros difere de qualquer princípio de representação, ao contrário, abstrai as conexões com o mundo. Por essa rede sem fim projeta-se a superfície da pintura, uma pintura que trama o lugar da própria arte.

Desse momento em diante, essa artista tão sensível à vida, nela quase recolhida por tênue película de proteção, mostra forte ambivalência: a inquietude da sua produção manifesta-se com vigor e contradiz todo o recato sugerido. Buscas insaciáveis por outros caminhos, corajosos experimentos aos quais se lança, a infatigável procura por referências a fazem projetar sua obra muito além das telas expostas ou dos objetos quadriculados que jazem ao solo. As incisões sobre o cobre, o sutil trânsito dos papéis reticulados sobre cristalinas lâminas de fibras de vidro, réguas transparentes que avançam pelas paredes indicam a dimensão essencialmente experimental da sua obra. Alcança com isso uma grandeza específica, a que requer progressivas descobertas.

A pintura de Gisela Waetge traz um profundo questionamento da ação artística. Traz também latente, a importante interrogação sobre suas convenções.
Ao compor essas telas de dimensões avantajadas, o reticulado em grafite, carvão ou em cor permanecem. Mas eles são agora enriquecidos por novas linhas cromáticas, estas projetadas por pingos de fluidos pigmentos que se esvaem pelas superfícies manchadas. Os percursos desses pigmentos são programados, como são os de todas as redes. Mesmo assim, seu trajeto é espontâneo, pois escapa ao controle da mão. E nesse intercalar do programado ao momento do acaso, está contida nesta obra, a controvertida função autoral da pintura.

Diante de todas as transparências coloridas que escorrem pelas telas, inquirindo a importância do suporte, da pincelada e da matéria da pintura, conchas sutilmente iluminadas dispõem-se alinhadas sobre um plano em um ponto do espaço. São os receptáculos que acolherão esses translúcidos pigmentos que correm pelas superfícies.

Nesse deslocamento dos pontos de tinta das telas ao seu refúgio um pouco distante no ambiente reside o princípio artístico dessa pintura. O vestígio desse movimento fica registrado nas telas, mas dali para o receptáculo, o movimento é o da idéia. Ele é indicado, mas efetivamente não existe.

A pintura de Gisela Waetge é pautada por uma contundente atitude propositiva e capacidade enunciativa. Mesmo que coexistam nessa obra todas as telas, os chassis, a matéria pictórica e atos pictóricos, todos revolvem a idéia de programa e com isso, interrogam em profundidade a ação artística, o lugar do autor, o limite das redes, enfim os contornos da arte. Arte esta que, na obra de Gisela Waetge, é calcada por inquietude, pela capacidade de instigar o pensamento e o sensível de todos os que com ela convivem.

Kosuth tinha razão quando sugeria que ser artista significava questionar a natureza da arte, o que Gisela tão bem aprofunda hoje em sua pintura. Ela sabe que somente através desta enriquecerá os caminhos e possiblidades da própria arte e, por ela, essenciais questões da própria vida. Um eterno desdobramento, este excepcionalmente não programado.

Mônica Zielinsky, Setembro de 2005