Toda caixa de lápis de cor deveria ter um rosa fúcsia

“O que eu mais tenho é uma vontade de realizar as ideias”
G.W.

Em 2015, passando pelos estágios finais de um câncer, Gisela vive. 

É inevitável comentar sobre o tempo que a artista passou no hospital. Este livro de artista foi totalmente desenvolvido lá. Naquele período, ainda que obviamente incomodada com as limitações impostas pela doença, Gisela parecia mais resiliente do que todos que a acompanhavam.  

Lembro da primeira vez que fui visitá-la, de subir as escadas do hospital de modo apreensivo, entrar em um longo corredor e começar a procurar o número do seu quarto. Há uma espécie de preparação mental do visitante da ala de oncologia. Assuntos que devem ser evitados, lavar as mãos antes de se aproximar, descobrir como ser útil, levar alguma coisa para deixar com o amigo – um livro, uma música, um filme, flores – e, sobretudo, não-se-demorar.  

A porta se abre, os pensamentos se dissipam, e o encontro apresenta-se em sua desorganização previsível.  

Logo de imediato, o assunto tabu por excelência, a iminência da morte, vem à tona como problema a ser enfrentado. Era sobre isso que Gisela acabava falando em todas as vezes que estive com ela. Mas esse tema, longe de servir à melancolia, era contexto de criação, condição de vida, daquele tempo em diante. 

O que fazer diante da morte?  

Tão impactante quanto inevitável, a morte assombra, na mesma medida, a vida  e a arte. No cinema, na literatura, na poesia, nas artes visuais – há, em todas as  áreas, obras cujo tema central é justamente a morte. Porém, na maioria das vezes  são os outros que morrem. Amigos, como Di Cavalcanti (1977) no filme-manifesto  de Glauber Rocha, a própria mãe, como na Série Trágica (1947) de Flávio de  Carvalho. Ou então a morte é de todo um povo, impõe-se na falência de um ideal de humanidade, como nos filmes Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos,  e O Filho de Saul (2015), de László Nemes. E quando o autor, aquele que escreve o poema, desenha, filma, dirige a cena, tem que enfrentar a sua própria partida? 

O cineasta Nicholas Ray, vivendo os estágios finais de um câncer, chama o  amigo Wim Wenders para, juntos, realizarem um filme sobre esse momento de sua  vida. Em Nick’s Movie (1980), Ray ao mesmo tempo expõe e encena sua morte.  Comentando a película, a força e o desespero que emanam de cada tomada, Eduardo Valente escreve que há algo de maior, de fora de controle acontecendo em cada  take: o câncer de Nick. E este não se encena. O filme vive sob este dilema, como diz Wenders. O filme é confuso, irregular, sem ritmo. O filme não se decide por um  caminho, é caótico. Ou seja, o filme está de frente com a morte. Mas não a morte  morta, a morte viva, a morte que dá sentido à vida. E o caos e a confusão não  podem ser escondidos pois não é assim que somos perante a morte?**

Ao contrário desses exemplos, a morte não emana como presença indômita em Toda caixa de lápis de cor deveria ter um rosa fúcsia

Ou sim? 

Nem toda morte é expressionista. Gisela não era uma pessoa triste. Sua vivência da morte também não é. Ao contrário, há leveza e ânimo por todo o livro. Entre desenhos ritmados, repetições gráficas, a frase só a abstração me interessa, o silêncio! anota um pensamento da artista. 

Gisela tem pressa, organiza e planeja uma série de projetos que podem ser executados por seus amigos e parceiros. Ela está cotidianamente trabalhando, repensando, corrigindo alguma anotação. Com as forças que ainda tem, parece querer deixar tudo o mais claro possível para aqueles que forem dar continuidade a suas ideias. Realizar!, ela escreve, com ponto de exclamação. Esta publicação é a realização de um desses projetos. A data da última anotação feita no caderno que temos em mãos é 04 de agosto de 2015, dois dias antes de falecer. 

Um livro da Gisela, com toda a sua leveza formal, sua obstinação serena, sua força vital reiterada em cada marca deixada sobre o papel.

Pontos.
Linhas.
Traços.
Rosas.
Frases.
Cor.
Círculos de cor.
Ritmo.
Traço curto, duplo, triplo, longo.
Ligações.
Elos.
Paralelas.
Combinações.
Desenho de desenho.
Um caderno infinito. 

Durante dias, semanas, tentei escrever este texto. 

“Fala sobre o processo do livro”, “narra as conversas de vocês sobre a  publicação”, “conta como chegamos às escolhas que fizemos”, me diziam os  amigos envolvidos no projeto – Michel Zózimo, Luísa Kiefer, Eduardo Veras.

Não consegui ir por esse caminho.

Não sei muito bem como essas coisas todas aconteceram. Apenas tenho a convicção de que todos tentamos fazer aquilo que, intuímos, Gisela faria. A delicadeza, o cuidado, a precisão, o humor com que a artista trabalhava e vivia guiaram todos os processos de edição deste fac-símile, da costura do caderno à tiragem da edição. 

Pensar no livro é pensar na Gisela.  

Tudo o que me vem à cabeça ainda é a artista já no hospital, um leve sorriso no rosto, emanando uma espécie de tranquilidade focada no desfecho previsível de sua enfermidade. Gisela estava organizando, sem medir palavras, nosso futuro com ela.

Gabriela Motta, março de 2017

*Texto de apresentação do livro de artista homônimo, publicado como fac-símile em abril de 2017. 

**VALENTE, Eduardo. O Filme de Nick e a transcendência do cinema-verdade.  Disponível em: <http://www.contracampo.com.br/01-10/ofilmedenick.html>