Entre dois campos

O conhecimento humano, sobretudo ao longo do século XX, com suas especializações e seus territórios delimitados, tratou de separar as ciências exatas, matemáticas e lógicas, do que seriam as humanidades. Desde então, a criação artística aparece com frequência mais próxima do segundo campo: a arte teria a ver, antes de tudo, com as intuições, com as liberdades, com os desregramentos. Seria como se ela, de alguma forma, criasse resistência ao que se apresenta como preciso, no sentido de rigoroso e irrefutável. A arte estaria sempre no lado oposto, onde quase tudo cabe e se faz maleável. Em um extremo, menos sedutor, repousaria a severidade matemática, a linha perfeita, a distância mais curta entre dois pontos, o percurso objetivo. No outro campo, tão caro à criação artística, grassaria o descomprometimento gestual, o ziguezague, a deambulação, o caminho mais disparatado entre sabe-se lá quantos pontos. Trabalhos como os de Gisela Waetge tornam mais poroso esse muro que divide em dois um mesmo mundo.

Em primeiro lugar, porque suas pinturas e seus desenhos evidenciam a beleza da matemática, o que seria, digamos, uma estética da exatidão. Gisela nos lembra que há algo, de fato, belo, harmonioso, atraente, em retas que se cruzam e se interceptam, estabelecendo quadros, quadrados, retângulos, dando origem a novospontos, planos, círculos, a esquemas gráficos e a campos de energia. Pontos e linhas, quadros e quadrados – ainda mais assim, sutilmente atravessados pelas cores – tocam no nervo mais sensível. São bonitos, vibram.

Em segundo lugar, porque essa beleza exata pode conviver bastante bem com aquela outra, mais imprecisa; na aparência, mais livre e mais descontrolada. As grades que Gisela risca comentam justamente essa tensão, ou esse estar juntos. Não se trata mais de celebrar um campo puro, exato, nem o outro, do outro lado, irreprimido, vasto. As forças se combinam. Os campos se entrelaçam. As grades se erguem entre um e outro.

O convite que a artista nos faz, também ele à primeira vista ordenado, lógico e funcional, sugere que qualquer um de nós pode construir um trabalho igual ao dela. Você mesmo, que há tanto tempo não desenha, tem a chance de riscar um desses fascinantes gradis. Basta cumprir as instruções: busque um lugar, ache o MMC, desenhe precisamente… Com sorte, deve resultar em algo bem parecido. Mas a receita, por mais exata, guarda sempre certa falha, e o mesmo vale para o seu cumprimento. Há nuances de gesto, de escolhas, sobretudo de interpretações. Onde se esperava o mais preciso, sem erro, a criação se abre para o imprevisível.

Eduardo Veras, 2012